A história da colonização da região do Ribeirão da Anta, em Tapiraí, ganha vida através da memória lúcida e vibrante de uma de suas moradoras mais antigas: Dona Ana Alves. Aos 96 anos de idade (caminhando firmemente para os 97), ela resgata com precisão as dores, os causos e a profunda relação de respeito mútuo entre as famílias pioneiras e a densa mata atlântica local.
SONHO E PROFECIA: O RIO E O PALMITAL
A trajetória da família de Dona Ana em direção às terras que hoje formam a região — que já ultrapassou a marca histórica dos 100 anos de existência — começou em meio a uma crise.
Na década de 1920, seu pai Gumercindo Alves da Silva, que vivia no Rio Bonito trabalhando na roça e na fabricação de telhas artesanais moldadas em fôrmas, encontrava-se desolado e choroso pela falta de terras boas para o sustento dos filhos.
A pequena Ana, na época com apenas seis anos, relembra que, após consolar o pai, este teve um sonho marcante no qual uma voz lhe dizia: “Não chore. Eu vou mandar você para um lugar de dois ricos. Eles vão cuidar de você...”.
Três dias depois, o pai viajou mata adentro seguindo a indicação de moradores locais. Ao chegarem na região, a profecia se decifrou: os “dois ricos” não eram homens abastados, mas sim a exuberância e a fartura da própria natureza. Um rico era o “Rio Juquiá”, que transbordava peixes; e o outro era o “palmital”, que cobria o terreno com abundância.

A Chegada dos Pioneiros e os Nomes da Lida
Os primeiros a desbravar o local foram o pai de Dona Ana, ela própria e sua irmã Catarina (hoje com 98 anos). Eles construíram o primeiro rancho rústico de baia no local onde hoje fica o prédio da antiga escola. O restante da família, incluindo sua mãe Mariana e os irmãos mais novos chegaram alguns meses depois com a primeira lavoura pronta. Dona Ana tem oito irmãos, os primeiros moradores do Ribeirão da Anta que floresceram na tradicional comunidade.
São eles: Catarina (98 anos), Geraldo (94 anos), Eliza Maria (91 anos), José Alves (88 anos), Pedro Alves (85 anos), Paulina Alves (84 anos), Jurandir Alves (80 anos) e Laurentina Alves (falecida).
Dona Ana conta que naquela época, as ferramentas de trabalho eram tratadas quase como membros da família e batizadas com nomes próprios pelo pai de Dona Ana: a foice de roçar, por exemplo, que enfrentava o mato grosso, chamava-se “Jacoqui”; já a enxada pesada era a “Marca Dragão”, descrita como aquela que “levanta o pó do chão”.
Causos e Nomes Antigos: Do Rabecão a Capa Bode
O isolamento na mata gerou uma série de nomes e toponímias que permanecem na tradição oral.
Dona Ana conta que, na primeira incursão do pai para demarcar as terras, o grupo, exausto e faminto, alimentou-se misturando farinha com açúcar e bebendo a água cristalina de uma queda d’água. O local ficou conhecido desde então como a Cachoeira Farinha com Açúcar, que pode ser visitado até os dias atuais.
Outro causo curioso envolve o medo do berrar do “Rabecão”,uma espécie de sapo-d’água gigante que vive nas lagoas da serra cujo canto alto e grave assustava os pioneiros que, inicialmente acreditavam tratar-se do urro de uma grande onça.
Geograficamente, Dona Ana relembra que a região que hoje compreende o centro urbano de Tapiraí era então chamada de Capa Bode. Segundo seu relato, no terreno onde atualmente funciona a estação rodoviária, não existiam construções; era comum ver antas e porcos-do-mato caminhando livremente.
O caminho entre o bairro e a cidade foi aberto no braço pelas próprias famílias pioneiras.

Antes de Tapiraí ser Tapiraí
Como Dona Maria lembrou acima, bem antes da emancipação de nosso Município, então pertencente a Piedade até 1959, o “centro da cidade” já foi conhecido por diferentes nomes, como Capa Bode, Distrito de Santa Catarina e finalmente Tapiraí que significa Lugar de Antas.
Mas bem antes disso, há cerca de 100, foi colocado para funcionar no já estabelecido Ribeirão da Anta o monjolo para moenda de milho e produção de farinha.
Movimentado pelas águas abundantes da região, o equipamento funciona até hoje, contribuindo para a produção e economia local e como atrativo turístico
e histórico.
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