Quem somos 24/07/2026 01:09 | 18 visualizações
A Infância sob o Véu da Neblina
Embora as certidões apontem Pariquera-Açu como sua origem oficial em 1994 — fruto de uma necessidade logística da época, quando a proximidade regional com Juquiá definia o local do parto —, Rodrigo é, por essência, um fruto das terras tapiraienses. Criado na zona rural, especificamente no sítio onde hoje funciona a Pousada Trilha dos Tucanos, ele viveu uma infância que hoje parece distante para a geração dos smartphones.
“Minha primeira memória de Tapiraí é a escola do bairro do ‘Chá’”. Rodrigo recorda da arquitetura imponente da escola com dois andares e um campo de futebol que servia de palco para as disputas do recreio. Naquele período a produção de chá já havia cessado, e o prédio escolar permanecia como um dos últimos bastiões de movimento daquela comunidade.
A infância foi marcada pela liberdade das ruas. Rodrigo faz parte da última geração que dominou a arte dos carrinhos de rolimã, das pipas e do “taco” nas ruas de terra e paralelepípedo. Mais do que lazer, essa época gravou em sua memória a mudança climática da região. “Tapiraí mudou muito. Lembro que, quando criança, a gente aprendia o que era o sol pelos livros, porque na prática o que víamos era a cerração o dia todo. Hoje, o clima abriu, o que mudou até o humor da cidade.”
A Escola da Vida: O Legado de Jaime
A transição para a vida adulta foi pavimentada por um nome forte: seu avô Jaime Jesus da Rocha, hoje com 76 anos – um imigrante português que personificou o homem que se fez por conta própria no século XX. Jaime chegou ao Brasil aos nove anos e percorreu um longo caminho, desde padeiro no Rio de Janeiro chegou em Tapiraí como motorista de ambulância, passando a funcionário da então tradicional e importante Loja do Oswaldo e dono de padaria, até que em 2005, fundou a Loja do Jaime hoje referência no comércio de materiais de construção, ferramentas e variedades que se tornaria destino de Rodrigo.
Rodrigo não assumiu apenas um balcão; ele herdou uma ética de trabalho. Ainda bem jovem, com 19 anos em 2013, ele ingressou no negócio da família, mas longe dos privilégios. “Eu trabalhava como ‘pião’. Cortava tela, carregava cimento, organizava o estoque. Era o trabalho bruto de dia e o ônibus para Sorocaba à noite para cursar Administração”, conta. Essa jornada dupla, exaustiva porém pedagógica, moldou sua visão de mundo.
No curso de Administração, Rodrigo buscou o verniz técnico — contabilidade, economia e sociologia —, mas admite que a verdadeira pós-graduação foi dada pelo avô. “A faculdade te dá as ferramentas, mas quem ensina a usar é o dia a dia, a convivência com o cliente e, claro, as puxadas de orelha do meu avô. Ele sempre foi uma escola de vida, ensinando que o comércio é, acima de tudo, confiança.”
O Administrador e a Engrenagem Econômica
Hoje, como gestor, Rodrigo analisa o cenário de Tapiraí com o pragmatismo de quem conhece o “chão de loja”. Para ele, a cidade vive um momento de estabilização, mas com nichos claros de crescimento. “O setor urbano cresce devagar por falta de renda da população, mas o setor rural e o turismo de investimento são a nossa grande força atual”, explica. Ele observa um fluxo crescente de pessoas de fora que compram propriedades para construir chalés e pousadas, movimentando a cadeia de materiais de construção e serviços.
Sua visão sobre a política é igualmente pragmática. Embora já tenha sido sondado para cargos públicos, ele prefere a liberdade da iniciativa privada. “Eu sou um executivo. Gosto de ver a coisa acontecer, de produzir. Tenho receio de que a burocracia política me frustrasse. Prefiro ajudar a cidade gerando empregos e fazendo a economia girar.”
Para Rodrigo, o desenvolvimento de Tapiraí passa pela criação de “engrenagens”. Ele defende que a instalação de pequenas indústrias que gerem de 20 a 30 empregos cada seria o suficiente para transformar a realidade das famílias locais, evitando que os jovens precisem buscar oportunidades em outras cidades.
Família e Futuro: O Ciclo se Renova
A vida pessoal de Rodrigo vive um momento de plenitude. Casado e pai de uma menina de pouco mais de um ano, ele se prepara para a chegada da segunda filha neste mês de fevereiro de 2026. Esse novo ciclo familiar reforça seu compromisso com a cidade. “Não penso em ir embora. Tapiraí é uma grande sede familiar. Aqui todo mundo se conhece, é um bom convívio social e ambiental.”
Seu sonho para os próximos anos é simples, porém ambicioso: crescer junto com a cidade. Ele visualiza uma Tapiraí mais forte economicamente, mas que não perca sua essência de acolhimento. “Quero que a cidade evolua para que possamos ampliar não só a loja, mas as oportunidades para todos. A gente precisa ser uma engrenagem que não centraliza, mas que faz todo mundo participar.”
Rodrigo Rocha encerra a conversa com o olhar de quem sabe que o material de construção mais importante de uma cidade não é o cimento ou o ferro, mas sim o caráter e o trabalho de quem escolhe ficar e construir sua história ali, um tijolo por vez.
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para deixar um comentário e avaliar esta notícia.
Fazer Login ou Cadastrar