Editorial 24/07/2026 01:48 | 17 visualizações
Eles representam uma afronta silenciosa, uma relíquia de um tempo em que as conversas tinham que ser agendadas, as ligações, pagas com fichas ou cartões específicos e, acima de tudo, a comunicação não era um direito imediato. A insolência do orelhão não reside apenas em seu design jurássico ou na sua incapacidade de se conectar com a modernidade, mas na sua teimosia em ocupar espaço.
Hoje, os orelhões servem a diversos propósitos, menos o de uma ligação telefônica. Alguns viraram lixões improvisados, outros se tornaram alvos de pichações, e muitos são apenas um obstáculo, exigindo que pedestres e ciclistas se desviem de sua carcaça de fibra de vidro e metal. E, em sua mais pura insolência, eles se recusam a desaparecer. Mesmo sem receber uma ligação há anos, eles permanecem em seu posto, como guardiões fantasmas de um mundo que não existe mais.
A insolência do orelhão é um lembrete de que o progresso, por mais avassalador que seja, nem sempre apaga completamente o que veio antes. Eles são uma espécie de monumento à obsolescência, uma estátua do passado que se recusa a cair, nos forçando a confrontar a distância que percorremos na forma como nos comunicamos. E, talvez, em sua teimosa e inútil presença, o orelhão nos ensine uma última lição sobre a capacidade de um objeto de resistir ao tempo, mesmo quando sua utilidade já se foi.
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